Projeto de Troféu para a
Olimpíada Brasileira de Química
quarta-feira, 6 de março de 2019
Como um abraço para o romance
Os Duqueanos, de Alfredo Tavares.
Os Duqueanos, de Alfredo Tavares.
– Irei...
Assim o bisonho personagem, no métier do seu até então enviesado papel, encerra o empeço desta saga.
Visivelmente apoucado no ambiente que lhe garante os insumos para ascender ao seu cobiçado patamar intelectual, acomoda-se, incomodamente, em divagações, enquanto escapa das vistas opressoras de um leão de chácara, do avião, do quarto do hotel e dos avisos de “é proibido fumar”, na fumaça inebriante e acolhedora dos seus cigarros [qualquer um].
– Quanto causo se passa na mesa de um bar!...
E ele vai.
A partir daqui, há outro universo. Outra realidade estética, outra linguagem, outros elementos, diametralmente díspares daqueles até então conhecidos. Um canto, quase sagrado (e suas cercanias), no cruzamento de duas vias num centro de cidade, uma mesa de bar, um evento (cultural turístico ou sabe-se lá o que [que diferença faz?]) talvez real talvez imaginário e uma troupe cativa que se reveza, trazendo consigo seus universos íntimos, expondo-os, sem pejo, entre copos borbulhantes e garrafas de cerveja e, com eles, construindo um outro, bem maior e severamente mais complexo: a torre soberba, conjunto das identidades e das suas atuações.
Alfredo Tavares, o mestre tutor desta obra, que até então controlava e urdia a forma e o conteúdo da peleja, cede, agora, de caso pensado, aos seus convidados personagens: - um palco, que constrói em artesanato de minúcias, com bagagens de conhecedor e observador atento, adindo-lhe mimos e prendas, talvez somente vivas no passado ou nuns recantos apenas visíveis a olhos de sensíveis e seletas atenções; - e a voz, inteira, solene e desbragadamente liberta, enquanto entranhada nos meneios do modus vivendi dos seus atores.
Misto de arquiteto, diretor, arqueólogo, historiador e poeta, Alfredo, maquina cuidadosamente sua obra no âmbito da criação; monta quebra cabeças; controla instantes, modulando o tempo ao seu estro e ligando-o, sob cuidadosa estratégia, em intricado e complexo labirinto; estabelece, mesmo quase imperceptivelmente, as relações simbólicas nos domínios do tempo, dos costumes e das culturas; remonta arsenais de lembranças e reconstrói, com eles, as já esgarçadas memórias físicas das ruas, das casas, dos templos...
Quando, afinal, ao leitor desatento, o enredo parece um mergulho suicida no limbo, Alfredo lhe abre clareiras, prepara cuidadosamente um altar de amparo e lhe deixa a ponta do fio de Ariadne. Eia, outra vez há um rumo a seguir. Um bom rumo!
Confesso que Os Duquenanos não é um livro fácil de se ler, mas também não o são, alguns cânones da literatura universal que nós, privilegiados, os lemos e lhes concedemos as devidas reverências.
Resta aqui uma obra densa, justa e ousada, mas também instigante, gentil, acolhedora e meticulosamente estruturada.
Há, em aberto, nestas páginas, o convite para um banquete de leitura.
– Irei!
Geraldo Jesuino
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019
O retorno do Dragão
(Abas da capa do livro
A Face do Enigma,
de Dimas Macedo)
Quando, em 2002, fez-se à lume A
face do Enigma – José Alcides Pinto e sua escritura literária -, JAP, que
em sua branca e quixotesca armadura, cavalgava solene, amparado pela inquietude
do seu gênio, arrefeceu o passo, rendeu-se, arremessou braços aos céus numa
prece e, com sua draconiana aura rompeu um silêncio.
O opúsculo que se lançava ao
mercado editorial, em esmerada e limitada edição de exemplares numerados,
continha em seu corpus o resultado de longa e minuciosa pesquisa de Dimas
Macedo na busca de traçar um perfil daquele enigmático escritor. Exibia, ainda,
além dos decassílabos e entrevista nos quais o autor confessa inconteste
admiração, 12 gravuras exclusivas, reveladas na madeira pelo dom de renomados
artistas cearenses que, com elas, gravavam para a posteridade, ao criador de O
Amolador de Punhais, as suas reverências.
Agora, vencida uma curta calmaria e
em tempo de memórias, rompe-se outra vez o silêncio. Embora já não se escute
mais o urro do desaquietado dragão, ainda é possível e necessário ouvir o ruflar
das suas asas, quase quietas, mas ainda a sacudir os ares das terras
escaldantes de São Francisco do Estreito. De lá, JAP, o Enigma, embora recluso,
ainda deixa à mostra a força da sua energia, ainda exerce o fascínio exuberante
da sua literatura e ainda mantém acesa a aura que o envolve em mistério.
Louco, maldito, mítico, místico, monge, ícone, gênio ou simplesmente um homem que se atreveu a trazer para esta, aquela esfera só permitida aos deuses e aos poetas? Talvez suas tantas identidades sejam necessárias para entendê-lo, talvez não lhe reconhecer nenhuma seja a chave para desvendar-lhe o mistério. Relevantes, sabemos, são a sua obra e a incessante investigação crítica da sua identidade.
Reedita-se agora o evento, -
relevando seus entes, sua vida, suas inquietas e desafiadoras letras e suas insólitas
páginas, - e se o conclama do seu curto descanso a colocar-se entre nós, a
ocupar o seu lugar de direito nos degraus mais altos da literatura brasileira.
Outra
vez A Face do Enigma. Agora, Dimas Macedo, alforjado somente de sua
argúcia de pesquisador, qual franciscano, despe-se solenemente das suas
merecidas vestes de poeta, despoja sua obra e a republica como uma prenda rara, assumindo-se admirador, guardador das
memórias e amigo incondicional de José Alcides Pinto.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2019
Sobre tempo, gênios e desenhos das traças.
(Abas da capa do livro
Hoje e o tempo passado e Um encontro com as lembranças)
Eis que me deparo a
percorrer sinuosos bordados, às margens de algumas folhas de papel, criados
pelo trabalho incansável e paciente das traças.
Em outros casos,
estaria a lastimar a ação impiedosa de tais insetos ante a perda da integridade
de algum documento de reconhecida valia, mas não aqui.
Neste caso, expressa e
deliberadamente, desapego-me da posse e da mágoa e debruço-me, ao amparo da
minha coragem, a urdir, como em linguagem silenciosa que apenas a mim fosse
permitido ouvir, outros pensamentos, outros significados.
Trato aqui dos desenhos
criados pelos perseverantes artrópodes nas margens das laudas que compõem um
repertório de afetos, disfarçado em livro de anotação de presenças do Mini
Museu Firmeza, apostos como registros na última parte deste Hoje e o tempo
passado e Um encontro com as lembranças, de Estrigas. Neles vejo o tempo. Não um tempo cruel e
implacável, mas aquele, sereno e necessário ao engendramento da história, à
acumulação dos feitos e à acomodação das memórias.
Vejo a força da
persistência, da dedicação e da desvelada determinação em resistir, mesmo em
restantes fragmentos, a serem buscados e escandidos, registrados e impressos,
em minúcias, para servirem de alimento a futuras fomes de saber e, também, a
outras traças - quem sabe - a causar naqueles, perversos prejuízos.
Dizem-me tais
interferências, da paz, da quietude, do aconchego e da benquerença cravados e
estampados nas árvores e flores, nos tetos e nas paredes, nos sorrisos e nos
semblantes, e até no tractraquear das rodas de trem, já ente de casa, sobre os
trilhos e dormente, seladas como legado permanente e exuberante da chácara dos
Fimeza e dos seus habitantes.
Garimpando vestígios
por entre os desenhos dos insetos, vejo o exercício do retorno às lembranças
lavradas – mas nem sempre legíveis – nas, tal qual as bordas do papel, sinuosas pistas da memória.
Observo ainda a
consciente manutenção de existências, moldadas exclusiva e deliberadamente
sobre a arte que exercem intencionalmente ou não. Isto porque, ao olho do
leitor atento e bem treinado nos domínios da linguagem da arte, esta pode, sem
sacrifícios de conceitos, ser constatada no rendilhado aleatório do recorte
executado pelas traças às bodas das folhas de papel. A elas – as traças – no
entanto, talvez não importe chegar a tal estado estético que, ao defender a
manutenção de sua curta existência, terminam, indeliberadamente, por promover.
Diferente dos pequenos
devoradores de papel, o autor desta obra, artista de escol e pesquisador cioso
e severo, a quem tenho orgulho de chamar de amigo, ao lado de sua Nice musa
companheira, faz arte de moto próprio, promove-a deliberadamente por escolha e
paixão quando empunha seus instrumentos e dá asas à sua imaginação e
criatividade, revelando a magia das formas, das cores e das palavras ou, apenas
a faz, sem nenhum esforço ou proposição deliberada, simplesmente sendo o
Estrigas que é.
Ainda em sinuoso
raciocínio, segui Estrigas em cada página desta obra e o constatei como o que
retorna, sem pressa e sem temor, às nervuras do tempo e lá cuidando de
recolorir e reavivar os rascunhos quase desbotados das suas lembranças mais
caras. Vejo-o pintar em tons pastel, com suas usuais competência e paixão, sua
paciente e disciplinada trajetória de cidadão, pensador e artista. Vejo-o quase
Zen ao escolher a maturidade como opção de postura para a sua interpretação dos
valores do tempo. Vejo-o um crítico/historiador que não se rebela em atitudes
dramáticas, mas também não lega ao somenos o seu papel de observador, que
mantém atento, das sinuosas venturas e desventuras da arte e da cultura,
mormente aquelas da cidade que abraçou.
Vejo a mim, por
derradeiro, agradecido por ter aprendido, mediante olhos sábios, a perceber o
tempo, as traças e os seus feitos, para entender um pouco mais sobre esse
exemplar de gênio que caminhou sempre, e apenas, sobre a urdidura da sua
coerência.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019
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