[PARTE 2]
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2 - POLÍTICA EDITORIAL
Se existem os recursos materiais e humanos, sente-se o absenteísmo do planejamento da produção, que definiremos, a partir de agora, como "política editorial". Consideremos o processo gráfico-editorial como um conjunto uniforme e globalizante, abstraindo a idéia de separação dos momentos-fases, nos quais um bloco de interagentes funciona harmonicamente, revesando-se no grau de importância que requer cada uma destas fases, e teremos uma visão resumida do "esqueleto" de uma política editorial. Da produção intelectual ao estímulo de compra e, desse estímulo à ação, existem métodos e técnicas que só se tornarão exercitáveis dentro de uma linha de atuação preestabelecida e seguida criteriosamente. É impossível ao produtor gráfico, ao homem responsável pela oficina gráfica, o inteiro domínio de todas essas técnicas, mormente se não lhe é dado tempo suficiente para atendê-las na totalidade, atentando-se ainda para a realidade de que outros procedimentos fogem à sua seara e não se coadunam com o seu mister. Assim, muito do seu trabalho poderá ser facilitado se uma linha de procedimentos lhe permite obter dados específicos do que deve ser produzido, como deve ser produzido e quando deve ser produzido.
Tomemos como base os três grandes objetivos da Universidade: o ensino, a pesquisa e a extensão, e os utilizemos como base para uma justificativa de exemplo de uma política editorial. Sabendo-se o ensino superior particularmente carente, no que diz respeito ao material bibliográfico, e conhecendo-se o potencial de produção intelectual do corpo docente, encampar e organizar essa produção, através de programas de extensão, é conceder um incentivo e um apoio à atividade da educação, num sentido mais amplo e permitir a utilização do próprio espaço da Universidade (gráficas e editoras) como laboratório num modo de ver mais estreito.
Daí, então, como definir essa doutrina à qual se atribui o direcionamento do processo? como fazê-la funcionar? Enfoquemos o processo, agora do geral para o particular. Como definir de fato a política editorial?
Tomemos como conhecidas as linhas direcionais do processo tais como: delimitação da área de atuação, níveis de aproveitamento dos recursos e de penetração no mercado e examinaremos minuciosamente os fatores mais particularizantes. Que tipo de impresso se deverá produzir de um modo geral? Dever-se-á adotar os critérios da publicação de baixo custo e de vida útil reduzida? Ou o contrário? A qual público cada publicação, em particular, se destina? Esse público permite uma redução dos custos pela elevação da tiragem? Que tratamento gráfico deverá ser dado a esta ou aquela publicação? Como apresentá-la graficamente? Deve nesta ou naquela a apresentação mais esmerada sobrepujar a racionalização? Existe publicação similar no mercado? Se há, por que editar outra? Se não, ela interessa de fato?
O volume dos questionamentos que norteiam o processo da editoração na sua amplitude real de importância, principalmente no âmbito em que o estamos posicionando, nos faz concordar com Amaral Vieira ao sugerir "como imprescindível a fixação de uma doutrina ou política editorial. À sua inexistência, — quer por parte do governo, quer dos editores em sua maioria, — muitas distorções são provocadas diariamente em prejuízo não só da indústria editorial como especialmente da cultura do país". (3) Admitir uma estruturação gráfico-editorial a nível nacional é admitir uma retomada de posição que cada unidade terá de enfrentar estruturando-se por si só de forma mais semelhante possível às demais componentes. É admitir também inúmeros descompassos que surgirão na fase de adaptação.
No entanto, embora possam existir algumas desvantagens na adoção de uma doutrina editorial, é sensivelmente maior o rol das vantagens que dela pode advir. Admitamos por uma hipótese remota (e aqui muito mais um sonho de um aficionado pela idéia) que se tenha adotado uma política editorial coerente em todas as universidades brasileiras e que esta meta tenha o caráter de competitividade com o sistema industrial da empresa privada. Em primeira instância, as universidades federais, estaduais e municipais, ou, apenas as federais, na pior das hipóteses, dispõem de um verdadeiro "pool" de distribuição do livro técnico.
Esse "pool", bem trabalhado, garante a fluição certa de um percentual de cada tiragem e essa venda certa pode ser transformada em redução dos custos, pelo aumento da tiragem. Dispõem ainda as universidades de todos os recursos humanos de que necessita o programa. Professores e técnicos podem compor o conselho editorial e a própria editora, além de desenvolverem trabalhos como copidescagem, traduções, etc...; além do mais, tem-se no corpo discente um potencial de trabalho ainda não explorado na área.
Esses recursos, associados à tecnologia já existente ou que pode ser conseguida com a ajuda de entidades internacionais de apoio a fundo perdido, formam a base principal para uma estrutura de médio porte, capaz de produzir, a médio prazo, satisfatoriamente. A proximidade que têm as universidades com fundações e programas de apoio como CNPq, INL, CAPES, PREMESU, etc, as coloca em posição invejável no âmbito das possibilidades de co-participação.
3 - DELIMITAÇÃO DA ÁREA DE ATUAÇÃO
Urge que se atente de forma consciente para a evolução da produção editorial. Já não existem mais os mecenas do livro e este deixa a cada dia de ser objeto de elite. O livro, hoje, é um produto situado no meio de um consumismo que tende a crescer quantitativamente e a exigir maior qualidade. E a universidade, mesmo sendo uma instituição de elite, tende a se universalizar e se tornar mais acessível. Assim não podemos conceber programas gráfico-editoriais sem uma delimitação específica. E imperioso a determinação de um campo de atuação entre as múltiplas opções que se apresentam.
A definição da produção gráfico-editorial nas universidades pressupõe um direcionamento estritamente gráfico (material de expediente e promocional) e um editorial-gráfico. Neste há de se fazer uma análise do que é mais viável e se estabelecer um programa, condicionado pelas características sócio-culturais da região e do campo de atuação da instituição.
Entre as classificações específicas das publicações (literárias, didáticas, técnicas, paradidáticas, teses e periódicos (revistas), encontramos 3, as quais terá a universidade de adotar. Em primeiro lugar, os livros técnicos, como forma de abastecer a sua própria clientela. Os dois outros, teses e publicações periódicas, se fazem necessários como forma de absorver o potencial produtivo do seu corpo docente e de dar incentivo à pesquisa. O caso das teses, deverá cada universidade estudá-lo a seu modo, dado oseu alto custo de produção e sua abundância. Um posicionamento que acreditamos viável (teoricamente) seria a instituição de um banco de teses em edições resumidas despojadas dos instrumentais, em reduzidas tiragens e em formato popular. Com referência aos periódicos os problemas são menores: os custos operacionais são mais reduzidos e as possibilidades de co-financiamento, mais amplas.
4 - ESTRUTURAÇÃO DO PROCESSO
Estabelecida a área de atuação, uma definição organizacional é exigida para tornar viável o processo.
Aqui há que se definir os setores responsáveis por todo o desenvolvimento editorial.
Como não somos forçados a pensar em estruturas pequenas, podemos nos fixar em quatro setores básicos, que, de comum acordo, elaborarão cronografias e fluxogramas, aprovarão ou não publicações, definirão custos e analisarão as possibilidades do setor, produzirão e comercializarão o produto. Ao setor editorial compete a seleção, programação e planejamento (gráfico e editorial) de cada publicação a ser editada tal como a negociação dos direitos autorais (ou de tradução) e constante acompanhamento da sua industrialização. O setor comercial fará circular o material produzido e o setor administrativo atuará como sustentáculo dos dois, desenvolvendo os serviços de pessoal, faturamento, almoxarifado, etc. Por fim, o setor industrial, a quem compete a feitura do produto.
4.1 — Modalidades de atuação
Os departamentos e setores funcionarão como partes de um organograma flexível onde cada passo, no seu momento, tende a ser o mais importante, sob determinadas condições preestabelecidas.
Vemos três modalidades de atuação do processo gráfico-editorial das universidades. A primeira, seria numa atuação independente, onde se adotaria o sistema de edições menores e de títulos novos. Esse tipo de atuação pode parecer primária e pouco lucrativa, mas é válido como forma de a universidade cumprir o seu mister de zeladora das raízes e características sócio-culturais de sua região. Nenhum mal há neste tipo de procedimento dado que os riscos serão minimizados pelas tiragens de pequeno porte. Os prejuízos neste item devem ser balanceados (quando houver) com os lucros das demais. Nesta modalidade de atuação se encontram as diretrizes que visam ao abastecimento específico da demanda local, nada impedindo que se possa fazer sua extensão aos demais estados do país. Aqui serão acondicionados os pré-testes de mercado. Uma obra inédita, de autor desconhecido ou reconhecidamente valorizado por sua universidade, mas sem grandes projeções a nível nacional, deve ser testada em circuito interno, utilizando-se o "pool" universitário de forma que, se não tiver aceitação, não acarrete grandes prejuízos, e se bem recebida, permita melhor aproveitamento da segunda edição. Uma das formas de minimização dos custos gráfico-editoriais ainda é o de produzir as primeiras edições em tipografia convencional e separar os pranchões impressos em uma só face e em papel de boa qualidade como resguardo para sua reedição. Se esta for requisitada se adotará a técnica ofsete, podendo, os pranchões, ser fotografados como estão e se ter eliminados os custos de composição, paginação, diagramação, revisão tipográfica e montagem. Assim a
publicação pré-testada terá amplas condições de ser lançada comercialmente em tiragem ampliada. A segunda modalidade, à qual damos maior importância, se refere a um sistema de atuação que não tem reflexos de dentro para dentro e nem se limita aos circuitos universitários; são os convênios. É sabido que, com a realidade econômica do país, ninguém poderia sustentar um programa editorial ousado sem ter de recorrer a recursos bancários, comprando dinheiro a preço de mercado. Se a universidade não tem aval para tanta ousadia, nada mais simples do que dividir com empresas, comerciais ou não, a produção editorial, dividindo também os investimentos aparentemente por dois. Digo aparentemente porque os custos serão rateados. Mas se o trabalho for produzido pela imprensa universitária, instituição que, como a universidade, quase sempre prescinde de lucro e tem material humano subsidiado, os 50% de fato representam um pouco mais.
Aqui a política editorial deve admitir a produção de qualquer tipo de livro que possa atender às premências maiores em escala nacional. São aquelas obras comprovadamente valiosas, que merecem um tratamento de maior tiragem, quer sejam nacionais, quer sejam estrangeiras. Se enfocadas apenas pelo lado mercadológico essa modalidade pode parecer mercenarismo das universidades, mas, analisada de forma ampla, admitindo-se as limitações do mercado nacional, se observará que é apenas uma forma de permitir maior opção de títulos ao consumidor extra-universidade e um desconto considerável ao público interno. A compra dos direitos de tradução de algumas obras conveniadas não invalida o objeto maior do programa editorial.
4.2 — Modalidades de distribuição
Com referência à distribuição, uma política editorial em universidades deve prever três modalidades: difusão, comercial interna e comercial externa.
Difusão — objetivando abastecer as bibliotecas, facilitando o intercâmbio.
Comercial interna - a distribuição entre as universidades para venda em consignação com desconto para o público interno e pequena participação do vendedor no preço de capa. As universidades dispõem de um excelente veículo de
distribuição: seus próprios campi . Não raro já existem pequenas livrarias exploradas por terceiros, sem aluguel e sem desconto para o alunado. Ora, se a universidade impõe como condição para a exploração dos minipostos de venda a obrigatoriedade de distribuição das publicações por ela indicadas, embora com alguma resistência, os exploradores dos postos aceitarão e, se não, o vendedor passa a não atender aos objetivos da universidade.
Comercial externa - aqui os programas editoriais das universidades adquirem características competitivas e muitas vezes têm de pagar o preço desta competitividade. Ao tentarem fazer distribuição em escala nacional, as universidades têm de se utilizar dos serviços dos distribuidores (agente de ligação entre o editor e o livreiro), que invadem mais e mais os lucros dos editores, fazendo com que estes se transformem em verdadeiros mágicos para pagar o que é exigido sem elevar os custos do livro. Senão vejamos: E praxe se calcular o preço de capa de um livro na faixa de 4 a 5 vezes o preço dos custos gráficos editoriais. As primeiras edições, de custo operacional alto, recebem (via de regra) o índice 4. É praxe também permitir aos distribuidores uma taxa de até 50% deste preço; no entanto, os de grande porte impõem às pequenas e médias editoras uma taxa de até 60%. Se não existir outra alternativa, temos: distribuidor 60%; considerando o índice 4, custos gráfico-editoriais, na faixa de 25%, e direitos autorais de 10%. Temos, então, um desconto de 95% do preço de capa e apenas 5% poderá ser movimentado pelo editor para custo de embalagem, vendedores, faturistas etc, etc, etc.
Para um editor comercial que prevê seu lucro na faixa de 20% a 30%, esse tipo de participação é impossível. Para as universidades poderá ser possível, levando-se em conta que o objetivo de lucro inexiste e que parte da publicação poderá ser distribuída pelas próprias universidades e nas livrarias locais, sem intermediário.
4.3 — Modalidades de captação de recursos
Se sabemos que a produção não terá objetivo de lucro e se, via de regra, uma distribuição através de distribuidores será deficitária a curto prazo, é preciso que se determine uma forma de captação de recursos mínimos para a manutenção do programa.
Defendemos a teoria do não-paternalismo, e achamos que toda a produção deverá ter ressarcidos os custos de produção, inclusive os periódicos que deverão ser vendidos a preço de custo (gráfico-editorial ou simplesmente o gráfico ou editorial). Isto significa que um periódico subsidiado (em parte) pelo CNPq, por exemplo, representa um custo unitário para as universidades de Cr$ 10,00; somem-se a isto os"direitos autorais (+ CrS 20,00) e o periódico poderá ser vendido a CrS 30,00, acessível até aos alunos mantidos pelo Crédito Educativo. O sistema deverá ser executado com cuidado para que os lucros, se houver, sejam convertidos em descontos e reequipamento do programa.
4.4 -Modalidades de reembolso da.produção intelectual
Em grande parte, o fracasso de programas editoriais se deve ao baixo nível da produção, o que exige uma seleção mais
apurada do material a ser publicado e uma elevação dos níveis intelectual, editorial e gráfico. Essa evolução só se conseguirá mediante pagamento aos produtores envolvidos no processo,
quer na área do conteúdo, quer na área da apresentação
gráfico-editorial.
As publicações deverão ser regidas por um sistema que admita:
1. Compra de direitos de tradução.
2. Pagamento de direitos autorais.
3. Cachê para produtores de artigos para periódicos.
4. Pagamentos de terceiros (apresentação gráfica do trabalho). O pagamento dos direitos autorais deverá ser feito na proporção em que a publicação for vendida para evitar grandes brechas nos orçamentos do programa pelo desembolso de somas relativamente grandes, excetuando-se o pagamento
a articulistas de periódicos, que deverá ser feito logo após a sua aprovação.
CONCLUSÃO
Montado o esqueleto geral da política editorial, muitas minúcias e algumas disfunções surgirão no início. Caberá à equipe mentora do processo levá-lo a termo, analisando, modificando, ampliando ou reduzindo, racionalizando-o em todos os seus quadrantes, tomando como base os fundamentos estruturados na doutrina que lhe serve de guia. Não tivemos nesta exposição a ousadia de proclamar uma fórmula mágica para os programas editoriais nas universidades; nossa intenção foi lançar uma idéia geral possivelmente valendo mais pela tentativa de mostrar que também as gráficas universitárias precisam acompanhar a acelerada evolução sofrida por todas as áreas de atividade, pois nossas gráficas em sua maioria só evoluem tecnologicamente, atuando sem um direcionamento que lhes permita o nível evolutivo e o reconhecimento que lhes é devido. Estamos pois envaidecidos de ter podido enfocar este assunto e plantar essa idéia em mentes que a aceitarão, modificando-a, de acordo com os seus pontos fundamentais de produção, e a ampliarão dentro das suas possibilidades. O papel das gráficas universitárias não deve ser tido como um simples apoio mas como uma atividade de extensão coerente e atuante, fortalecendo este objetivo ainda pobre da universidade.
Apostamos na certeza de que qualquer um dos que aqui estão presentes pode levar a efeito estas idéias, adaptando-as às suas condições. A todos eles eu credito a confiança de que o farão no prazo mais curto e da melhor forma que se possa desejar.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. ANDRADE, Olímpio de Sousa - O livro brasileiro desde 1920, Rio de Janeiro. (Brasília), Editora Cátedra -MEC, 1978, 168 p.
2. HOUAISS, A. — Elementos de bibliologia. Rio de Janeiro,
Instituto Nacional do Livro, 1967.
3. MAGALHÃES, A. e outros — Editoração hoje. Rio de Ja
neiro, Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1975.
4. DEMO, Pedro — Educação, cultura e política social. Porto
Alegre, Feplan, 1980, 122 p.
5. BAPTISTA, Anna Lúcia C. — Editoração no Brasil hoje, In
Anais do segundo encontro nacional de diretores de grá¬ficas universitárias, Viçosa, Imprensa Universitária da UFV.