domingo, 26 de outubro de 2025

 



Rogério Bessa do Brasil

e do mundo de hoje

(prefácio)


Geraldo Jesuino


 

 

Sou uma das pessoas a quem é permitido o privilégio de ler obras em primeira mão, com vistas a emprestar-lhes alguma experiência de artesão editorial e gráfico no - ainda para mim - “sagrado” ritual da transformação de um texto em livro. Tais exemplares são, quase sempre, pré-originais,[i] em versão impressa ou digital, em regra bem cuidados, aos quais se pretende  edição.

Cumpro, é bem verdade, um sacerdócio profissional que cobra, em algumas (poucas) vezes, pesado ônus, mas, em contraposição, em outra tantas, obsequia-me com mimos de enlevo e subido privilégio. Trata, esse particular, do exercício de partilhar a intimidade autor no instante imediatamente posterior à gênese da sua criação, quando sofre ou exulta, reagindo ou se submetendo às intervenções dos seus “editores”, extirpando, adindo, modificando, revisando, corrigindo, polindo, enfim, à exaustão, detalhes mínimos e personalísticos, no intento de alcançar um invejável estado de arte, próximo a perfeição, a merecer o “–Parla!” de Michelangelo.[ii]

Recentemente, em uma dessas gratas oportunidades, tive ao alcance da leitura o original digital de Poesia do Brasil e do mundo de hoje, do professor, linguista e poeta Rogério Bessa.

Quem o conhece em pessoa, ainda que superficialmente, ou no corpus da sua obra, seguramente dispõe de elementos para não se agastar a vislumbrar surpresas em qualquer quadrante do seu desempenho. Afinal, a homens de tão elevada e disciplinada competência, quer no trato pessoal sempre afável e refinado, quer na obstinada austeridade exercida nos domínios da academia, quer nos tortuosos e intrincados caminhos da pesquisa à qual se dedica, ou, ainda, no acurado exame de cada detalhe de sua obra, não são merecidas as suspeitas. Mais seguro é confirmar-lhe, de véspera e sem sobrosso, resultados exemplares, pois, sabe-se, obtidos mediante calma e controlada persistência ao cabo de silencioso, metódico e ousado processo de criação.

Tudo isso tranquiliza a expectativa de quem lê Rogério Bessa, mas, desta feita, é forçoso confessar-me apanhado em sobressalto.

Ausenta-se da minha formação qualquer domínio confiável da ciência de Ferdinand de Saussure, o que me pune com a frustração de não ter alcance à obra acadêmica deste meu amigo professor, como o têm, com raro brilhantismo, os doutores José Alves Fernandes, José Américo Bezerra Saraiva e Adriano Espínola. No entanto, como à leitura de poesia não se  interpõe qualquer pré-requisito além de alguma alfabetidade[iii] e cultivo de qualquer refinamento de sensibilidade, pude dedicar-me ao deleite de ler parte de sua obra poética.

 Assim o foi com Redescoberta de Orfeu ou o mundo nunca encontrado,[iv] levado a lume em 1999 e a mim presenteado pelo próprio autor, alguns anos depois. O livro foi lido sofregamente em primeira instância e depois, mais calmamente, outra e outras vezes.

Ao cabo de um tempo, quase acostumado a um intraduzível, mas agradável, estarrecimento quanto à obra no seu aspecto geral - o que, certamente, envolveu as minhas especulações de editor -, encontrei no mestre, amigo e patrono José Alcides Pinto o adequado antídoto para a minha inquietação: “Duvido muito que mais de duas dúzias de pessoas tenham lido o livro, excetuando-se os alunos da UFC, já que Rogério foi professor da Universidade. [...] Construiu ele sua poesia como bem quis, segundo sua natureza sensível, indiferente aos modismos dos movimentos literários das últimas décadas.” [v], assegura o paladino poeta de São Francisco do Estreito. De fato, Redescoberta de Orfeu ou o mundo nunca encontrado não é obra de fácil entendimento e seu afeiçoamento gráfico não apresenta recursos técnicos ou estéticos a colocá-lo em competição de venda no mercado editorial.

Nada o credenciava a ser mais um entre os tantos candidatos a best seller - e não o foi, como tantos outros livros de reconhecido valor - mas JAP, fiel à sua postura de não prestar louvores gratuitos e reconhecida aversão aos patamares e tendências de época, sentenciou: “O leitor tem agora em mãos um dos livros de poesia mais importantes que já se editou nesses últimos tempos [...]”.

Julguei, portanto, estar diante da obra de um poeta no ápice da sua criatividade e, ao seu modo, na plenitude do fazer poético.

No entanto, isso aconteceu já faz bastante tempo e, à época, abstrai um aspecto de especial importância acerca do qual nos alerta agora o autor “[...] tudo urge e ruge, /preciso é dar tempo ao tempo/como em ferro faz a ferruge(m)/sem o menor contratempo; [...]”.

Pois bem, não havia pressas. Rogério Bessa não parece dedicar-se com grande afinco a essas preocupações. Seu modus operandi se marca pelo zelo, em detrimento da oportunidade. Esta, aliás, característica há muito praticada pelos virtuosos e já identificada por Goethe: “Tais pessoas talentosas muitas vezes nos deixam impacientes, uma vez que é raro que nos deem imediatamente aquilo que desejamos. Mas apenas por este caminho é que se consegue realizar as coisas mais elevadas”.[vi]

Em Redescoberta de Orfeu ou o mundo nunca encontrado, nosso autor adota a regra do jogo entre o fazer poético e a linguagem, no qual se atribui à criatividade o papel de promover renovação e expansão dos limites da língua.[vii] Assume um torneio linguístico/poético que beira o erudito e se posta, desta feita, inóspito ao leitor comum. Em oposição, e estrategicamente, quero supor, dota seus poemas de rimas, que por sua vez, acentuam o ritmo e criam aparente proximidade com a forma dita clássica. Tudo isso aponta para uma estratégia que aparenta trazer embutida uma intenção de contida funcionalidade num desenho de projeto poético preconcebido e ajustado.

Outra vez me reporto ao argumento tempo com vistas a justificar minha surpresa: 15 anos separam as duas edições e, nesse lapso, o poeta cuidou de  acercar-se dos matizes do mundo, merecer a afirmação do autor de O amolador de punhais[viii] e negar minhas conjecturas.

Poesia do Brasil e do mundo de hoje me posta pasmado a purgar a petulância de ter ousado fazer juízo acerca dos estados evolutivos e patamares limites da criatividade. Vence a surpresa diante da construção do projeto, na sua plenitude.

Aqui, a liberdade pleiteia a forma,[ix] e a ousadia assume as diretrizes do pensamento e da criação. Rogério Bessa faz-se único e múltiplo, antigo e contundentemente atual, num tempo no qual existe, satiriza, questiona e inquire. Não se permite deixar-se a mercê de dubiedades ou de fortuitas opiniões/definições. Define-se de moto próprio: “poeto a meu modo / tenho meu modo de ser//muito pouco me incomodo / se meu modo não se vê//em meu modo em mim estou / mas não sou nenhum Buffon//não visto casaca de seda / nem uso punhos de renda//poeto como às favas indo / à essência do homem se vai”, ao mesmo mote de Leminski  ao postar-se escritor em “Razão de ser”: “Escrevo e pronto/[...]/ ninguém tem nada com isso.”[x]

Em seguida, como às favas indo, nosso autor exorta a poesia a acomodar-se aos seus intento e estilo (ou estilos) de poeta andarilho,[xi] desatado dos modismos ou tendências de qualquer natureza. Adotá-los ou ignorá-los passa a ser opção do poema exigi-los ou não. Afastar-se das convenções até onde lhe permite a ousadia é a sua ferramenta para encontrar-se, do seu jeito, com a língua, experimentando, como o fazem também, outros poetas brilhantes e arredios a exemplo de Manoel de Barros: “Fujo do mesmal  pela renovação sintática”.[xii]

Aqui, nosso autor não permite que sobrevivam intenções dissimuladas. Não deixa dúvidas quando elege outros poetas como leitmotiv. A João Cabral, acompanha nas suas divagações poético-filosófico-visionárias sobre o tempo, seus efeito e medidas,[xiii] além de assumir-lhe a forma enxuta, quase seca de metáforas. A Millôr Fernandes dedica sua opção por uma linguagem com pigmentos de humor e sátira, presentes em quase toda esta obra, além de homenagem em, principalmente, “Paródia da epígrafe da parte I”, (pag. 179) entre outros poemas.

Outras predileções, também explicitadas, atuam em campos diferentes. Nestas, brota a admiração pura, onde o estilo arrefece os ímpetos da ousadia e se dedica em forma e conteúdo aos admirados, ora no trajeto da parodia, ora nos matizes sentimentais, ora by other paths.

Acerca de poetas, certa vez arrisquei-me a afirmar que “[...] são habitantes de universos superiores, onde a beleza e a sensibilidade estética não se poupam e com eles se entrelaçam em perfeita comunhão”.[xiv]

Assim vejo e conheço Rogério Bessa. Se não o alcanço linguista, vejo-o poeta que se revela muitos, mas permanece uno, em essência, contido, mas narcisista[xv] ao postar-se explícito em sua poesia.

Abro sempre a porta dos meus olhos e dos meus rudes talentos de leitor aos poetas e, aqui, aos Rogerio Bessa, enigmático “daí então,/já não serei/mais que, senão/esse não ser”; sarcástico: “[...] não é bispo, senão grande bispote, muito menos que peça de xadrez”; existencial: “tudo tem seu ramerrão,/cansamo-nos, mesmas coisas,/andar, ver o mesmo chão” e lírico no excelente “Direito e deveres do homem” que se encerra brilhantemente assim: “vivendo na ilusão de estarmos antes/ou pensando que ainda somos ontem”.

Privilégio tive por ter lido Poesia do Brasil e do mundo de hoje ainda como um sonho, inacabado. Privilégio temos, todos nós, por lê-lo agora como realidade, pronto.

 

 



[i] Termo usado para definir o originai (ou pequeno número de cópias dele) enviado a pequeno número de leitores, com vista a recolher opiniões que levem à concretização daquele definitivo que servirá de base para a reprodução. In: LAUFER, Roger. Introdução à textologia, São Paulo: Perspectiva, 1980, p.14.

 

[ii] Expressão atribuída a Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni, após concluir o seu Moisés.

 

[iii] DONDIS, Donis A. A sintaxe da linguagem visual. São Paulo: Martins Fontes,1977, p.1.

 

[iv] BESSA, Rogério. Redescoberta de Orfeu ou o mundo nunca encontrado, Sobral: ASEL/Caiçara, 1999.

 

[v] Ver texto na íntegra ao final desta obra, seção “Obras anteriores do poeta e a crítica”.

 

[vi] Apud MANN. Thomas O escritor e sua missão, trad. de Cristina Michandellis, Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p.80.

 

[vii] In FLUSSER, Vilém A escrita: há futuro para a escrita?, São Paulo: Ana Blume, 2010, p115.

 

[viii] cf. Seção “Outras obras do autor e a crítica”, ao final desta.

 

[ix] “A forma em sua representação, é aquilo que há em nós: apenas uns artifícios para comunicar ideias, sensações, uma vasta poesia”. Balzac in; MANGUEL, Alberto Lendo imagens: uma história de amor e ódio, São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p29.

 

[x] LEMISKI, Paulo Toda poesia, São Paulo: Cia das Letras, disponível em <<portugues.free-eboks.net>>

 

[xi] No sentido que se lê na resposta de Manoel de Barros a Ana Cecília Martins, In: Fundação Biblioteca Nacional Poesia sempre, Ano 13, N 21, 2005, p.13. “Poesia é uma aventura errática. Eu acho parecido com a aventura dos andarilhos. Os andarilhos não andam por caminhos traçados. Eles fazem seus caminhos”.

 

[xii] Ibidem, p.13.

 

[xiii] Ver, por exemplo, “O relógio” e “Alpendre no carnaval”, In: NETO, João Cabral de Melo. Antologia Poética, 2 ed., Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora - Sabiá, 1973, p68/73, e (principalmente) “O relógio”, na página 46 desta obra, entre outras tantas referências ao mesmo tema.

 

[xiv] COSTA, Geraldo Jesuino da. Como abraços, Fortaleza: Imprece Editorial, 2014, p 29.

 

[xv] No sentido explicitado por Manoel de Barros in: Poesia Sempre, op. cit., p.17: “O poeta é um narcisista. Cada verso é ele no espelho”.