Lúcido Patriota
Certa vez, lendo Pessoa - “minha pátria é a língua
portuguesa” -, em pesquisas paralelas, descobri uma certa poetisa, cronista,
escultora francesa - Lucie Delarue-Mardrus - que me chamou a atenção por um
poema que escreveu sobre o Rio de Janeiro e, principalmente, por uma citação,
-“Escrever bem a sua língua é uma forma de patriotismo” - que, dada sua pequena popularidade no Brasil,
não lhe consegui descobrir em qual obra foi lavrada.
Daí quedei confiante na esperança - e anda nela me afinco
- mesmo nesses tempos de consentidos e perversos descasos, de que ainda há
motivos para comemorar.
De vez em quando, alguém ainda se arremete ao quase
desusado costume de cuidar dos seus escritos com o carinho e, antes de mais,
com o respeito que lhes merece a língua-mãe embora, não raro, tais empreitadas
lhe valham algum rótulo, como, conservador, “quadrado”, acadêmico - com ranço -
ou, simplesmente, antigo.
De quando em vez, inda é
possível encontrar autores que não se rendem, e ainda se indignam à moda
pessoana, que ainda empunham em estandartes, já nem tão numerosos, o orgulho de
ter tido e continuar tendo sua formação forjada “naquela” academia, em cujos
pilares se sustentam a cultura, a ética e a cidadania.
É uma dessas vezes. Leio agora Arquiteto a Posteriori,
novo tomo que me presenteia a incansável
lavra do Professor João Vianney Campos de Mesquita, mas não alcanço surpresas.
Antes, a comprovação de um passo - mais um - seguro, mais maduro e, como
sempre, cuidadosamente executado, na trajetória de sua já extensa e respeitável
obra literária, na qual figuram, na
mesma linha deste, Impressões – estudos de Literatura e Comunicação
(1989), Resgate de ideias (1996) e Repertório Transcrito ( 2003).
Aqui, Vianney conscientemente abstrai as barreiras que aparentemente
separam as inúmeras áreas do
conhecimento e, com peculiar simplicidade e segurança, entre elas trafega
alçado pelo domínio da interdisciplinaridade experimentada na atividade docente
- labuta e sacerdócio - provando ser
possível pensar aproximando conceitos e
ideologias.
Arquiteto a Posteriori reúne textos acerca de obras cuidadosamente
eleitas sob o rigor da qualidade, nos
quais descreve olhar e sentimento, exercendo atitude crítica pura, incólume às
práticas menores dos achaques, dos denegrimentos gratuitos e das desmerecidas
lisonjas.
Assenhoreia-se, ao traçar os conceitos e considerações, da
admirável benquerença que lhe merecem os amigos e os bons textos, mas não se
afasta da atitude severa dedicada à análise erudita, que modestamente chama de
comentário.
Assim, sem descanso em seus cuidados, temor em seus
princípios nem recuos em sua dedicação ao idioma pátrio, empunha a bandeira de
Pessoa e Lucie, e nos presenteia com outra página da sua literatura a
confirmá-lo legítimo patriota.
Geraldo Jesuino
da Costa
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