segunda-feira, 19 de agosto de 2013


Lúcido Patriota





Certa vez, lendo Pessoa - “minha pátria é a língua portuguesa” -, em pesquisas paralelas, descobri uma certa poetisa, cronista, escultora francesa - Lucie Delarue-Mardrus - que me chamou a atenção por um poema que escreveu sobre o Rio de Janeiro e, principalmente, por uma citação, -“Escrever bem a sua língua é uma forma de patriotismo” -  que, dada sua pequena popularidade no Brasil, não lhe consegui descobrir em qual obra foi lavrada.
Daí quedei confiante na esperança - e anda nela me afinco - mesmo nesses tempos de consentidos e perversos descasos, de que ainda há motivos para comemorar.
De vez em quando, alguém ainda se arremete ao quase desusado costume de cuidar dos seus escritos com o carinho e, antes de mais, com o respeito que lhes merece a língua-mãe embora, não raro, tais empreitadas lhe valham algum rótulo, como, conservador, “quadrado”, acadêmico - com ranço - ou, simplesmente, antigo.
De quando em vez, inda é possível encontrar autores que não se rendem, e ainda se indignam à moda pessoana, que ainda empunham em estandartes, já nem tão numerosos, o orgulho de ter tido e continuar tendo sua formação forjada “naquela” academia, em cujos pilares se sustentam a cultura, a ética e a cidadania.
É uma dessas vezes. Leio agora Arquiteto a Posteriori, novo tomo que me presenteia a  incansável lavra do Professor João Vianney Campos de Mesquita, mas não alcanço surpresas. Antes, a comprovação de um passo - mais um - seguro, mais maduro e, como sempre, cuidadosamente executado, na trajetória de sua já extensa e respeitável obra literária, na qual figuram, na mesma linha deste, Impressões – estudos de Literatura e Comunicação (1989), Resgate de ideias (1996) e Repertório Transcrito ( 2003).
Aqui, Vianney conscientemente  abstrai as barreiras que aparentemente separam  as inúmeras áreas do conhecimento e, com peculiar simplicidade e segurança, entre elas trafega alçado pelo domínio da interdisciplinaridade experimentada na atividade docente - labuta e sacerdócio -  provando ser possível pensar aproximando  conceitos e ideologias.
Arquiteto a Posteriori reúne textos acerca de obras cuidadosamente eleitas sob o rigor da qualidade,  nos quais descreve olhar e sentimento, exercendo atitude crítica pura, incólume às práticas menores dos achaques, dos denegrimentos gratuitos e das desmerecidas lisonjas.
Assenhoreia-se, ao traçar os conceitos e considerações, da admirável benquerença que lhe merecem os amigos e os bons textos, mas não se afasta da atitude severa dedicada à análise erudita, que modestamente chama de comentário.
Assim, sem descanso em seus cuidados, temor em seus princípios nem recuos em sua dedicação ao idioma pátrio, empunha a bandeira de Pessoa e Lucie, e nos presenteia com outra página da sua literatura a confirmá-lo legítimo patriota.

Geraldo Jesuino da Costa

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